Dra. Natália Junkes Milioli

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    Dra. Natália Junkes Milioli

    Médica especialista em Gastroenterologia | Pesquisadora na área de Gastroenterologia e Doenças inflamatórias Intestinais | Publicações de artigos em Revistas Internacionais da área | Premiada na Europa em 2024.

Hoje vamos conversar sobre disbiose com foco no entendimento do SIBO e do IMO. A ideia aqui é explicar, de forma simples e direta, o que esse termo significa, quais sintomas ele pode causar, como fazemos o diagnóstico e quais são as possibilidades de tratamento.

Nos últimos anos, o estudo do microbioma intestinal ganhou cada vez mais espaço na medicina, e isso não aconteceu por acaso. Hoje sabemos que o nosso intestino abriga trilhões de micro-organismos  (não apenas bactérias, mas também vírus, fungos e protozoários) que, em um organismo saudável, convivem em equilíbrio e desempenham funções essenciais para o bom funcionamento do corpo.

A formação dessa microbiota começa muito cedo, especialmente na primeira infância, e sofre influência direta de diversos fatores ao longo da vida: o tipo de aleitamento, o ambiente em que a pessoa vive (zona rural ou urbana), a exposição a alimentos ultraprocessados, o uso frequente de antibióticos, a diversidade da alimentação, o contato com poluição e toxinas, entre muitos outros.

Por isso, é importante entender que não existe uma única microbiota considerada ideal ou “perfeita”. Cada pessoa constrói a sua ao longo da vida, de acordo com sua história, hábitos e condições de saúde.

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O que significa o termo “disbiose”?

O termo disbiose é utilizado quando esse equilíbrio se perde. Ou seja, quando ocorre uma alteração na composição ou na quantidade desses micro-organismos, criando um ambiente que favorece o surgimento de sintomas gastrointestinais ou até mesmo de doenças. Dentro desse conceito amplo, hoje reconhecemos alguns tipos mais específicos de disbiose, como o supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO), o supercrescimento metanogênico (IMO), e o supercrescimento de micro-organismos produtores de hidrogênio sulfurado (LIMO). Neste artigo, vamos aprofundar a explicação sobre os dois primeiros por serem as formas mais comuns na prática clínica.

SIBO – Supercrescimento Bacteriano do Intestino Delgado

Para entendermos o SIBO, antes é preciso compreender inteiramente como se dá o equilíbrio do nosso trato digestivo. Em condições normais, o corpo produz ondas de contração ritmadas, chamadas peristalse, capazes de propelir o bolo alimentar sempre no sentido boca-ânus. Esse movimento coordenado é fundamental para evitar a estagnação ou refluxo do conteúdo intestinal.

No entanto, algumas condições podem prejudicar essa motilidade, aumentando significativamente o risco de retorno ou acúmulo de conteúdo entérico nas alças intestinais. Doenças neurodegenerativas, estados crônicos de estresse e ansiedade, uso de medicamentos como análogos de GLP-1, diagnóstico de síndrome do intestino irritável, entre outros fatores, podem levar a um quadro denominado dismotilidade. Nesse cenário, a peristalse não ocorre de maneira adequada, favorecendo o acúmulo de bactérias no intestino delgado e criando um ambiente propício para o desenvolvimento do SIBO.

E qual seria a principal consequência de uma superpopulação de bactérias no intestino delgado? Para responder a essa pergunta, é importante compreender a função do intestino fino. Esse segmento apresenta uma superfície amplamente revestida por vilosidades, o que garante grande área de absorção de nutrientes e permite a adequada ação das enzimas digestivas naturalmente produzidas pelo organismo.

No SIBO, há uma superpopulação bacteriana ocupando essa superfície, o que compromete tanto o processo de digestão quanto a capacidade de absorção de nutrientes. Além disso, a atividade metabólica dessas bactérias, ao entrar em contato com o alimento, resulta na produção excessiva de gases por meio da fermentação. Adicionalmente, essas bactérias possuem metabolismo próprio e liberam metabólitos capazes de interagir sistemicamente com o organismo. Embora ainda não esteja totalmente esclarecido como esse processo ocorre e em que magnitude, já existem associações relevantes entre o SIBO e outras condições de saúde, como esteatose hepática, cirrose hepática, doença de parkinson, doença celíaca, diabetes mellitus, entre outros.

Os sintomas mais frequentemente associados ao SIBO incluem distensão ou inchaço abdominal, diarreia, aumento da produção de gases, náuseas e desconforto abdominal. Em alguns casos, também podem ocorrer deficiências nutricionais, como de vitamina B12 e ferro, decorrentes da dificuldade de absorção.

Como é feito o diagnóstico?

O método mais preciso para o diagnóstico do SIBO é a aspiração do conteúdo do intestino delgado por meio de endoscopia, com análise da quantidade de bactérias presentes. No entanto, por ser um exame invasivo, caro e pouco acessível, ele acaba sendo mais utilizado em ambientes de pesquisa.

Na prática clínica, o exame mais utilizado é o teste respiratório. Durante o teste, o paciente ingere um líquido contendo glicose ou lactulose. Essas substâncias, ao entrarem em contato com as bactérias presentes no intestino delgado, sofrem fermentação e produzem gases, principalmente hidrogênio. Parte desse gás é eliminada pela respiração e pode ser medida ao longo de cerca de duas horas. Uma produção excessiva sugere a presença de SIBO.

Como é feito o tratamento?

O tratamento depende da gravidade dos sintomas e, principalmente, da causa que levou ao supercrescimento bacteriano. Em muitos casos, mais importante do que apenas tratar as bactérias é corrigir o fator que criou um ambiente favorável para que elas se multiplicassem.

Quando necessário, utilizamos antibióticos específicos que atuam predominantemente no intestino, sempre associados a ajustes na alimentação e ao tratamento da condição de base. Isso reduz o risco de recorrência e melhora os resultados a longo prazo.

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IMO – Supercrescimento Metanogênico Intestinal

O IMO é uma forma específica de disbiose caracterizada pelo aumento da quantidade de micro-organismos produtores de metano, chamados de arqueias. Diferentemente do SIBO, o problema no IMO não está no local onde esses micro-organismos se encontram, mas sim na quantidade e na atividade deles. As arqueias podem estar presentes tanto no intestino delgado quanto no intestino grosso, porém em número excessivo passam a interferir no funcionamento normal do intestino.

Esses micro-organismos utilizam gases produzidos por outras bactérias e, a partir desse processo, produzem metano. O metano, por sua vez, exerce um efeito direto sobre a motilidade intestinal, tornando os movimentos do intestino mais lentos. Como consequência, o trânsito intestinal desacelera, o que ajuda a explicar por que essa condição está tão frequentemente associada à constipação.

Na prática, pessoas com IMO costumam relatar constipação intestinal persistente, distensão ou inchaço abdominal, sensação de evacuação incompleta, dor abdominal e aumento da produção de gases. Muitas vezes, esses sintomas são crônicos e pouco responsivos às abordagens convencionais para constipação.

O diagnóstico é realizado por meio do teste respiratório, com atenção especial aos níveis de metano ao longo do exame. Valores elevados de metano reforçam a presença desse supercrescimento metanogênico. O tratamento do IMO costuma exigir uma abordagem mais cuidadosa e individualizada. Ele pode envolver combinações específicas de antibióticos direcionados às arqueias, estratégias para melhorar a motilidade intestinal e ajustes na alimentação. Assim como nas outras formas de disbiose, identificar e tratar os fatores que favoreceram esse desequilíbrio é fundamental para reduzir o risco de recorrência e melhorar os resultados a longo prazo

Atenção! Melhor prevenir do que remediar

A disbiose intestinal não costuma surgir de um único fator isolado. Na maioria das vezes, ela é resultado de um conjunto de situações que, ao longo do tempo, vão alterando o equilíbrio natural da microbiota intestinal e o funcionamento do intestino como um todo. Independentemente do tipo de disbiose, muitos dos fatores de risco e das estratégias de prevenção são semelhantes.

O modo como vivemos impacta diretamente a saúde do intestino. Rotinas muito irregulares, alimentação pouco variada, sedentarismo, noites mal dormidas e níveis elevados de estresse podem interferir na motilidade intestinal e na composição da microbiota, criando um ambiente mais favorável ao desequilíbrio.

A alimentação merece destaque especial. Dietas pobres em fibras e com baixo consumo de alimentos naturais reduzem a oferta de prebióticos, que são os nutrientes responsáveis por alimentar as bactérias benéficas do intestino. Sem esse suporte, a microbiota perde diversidade e resiliência, tornando-se mais vulnerável à disbiose.

Além disso, o uso frequente de determinados medicamentos sem acompanhamento médico, cirurgias prévias, doenças intestinais, alterações hormonais e o próprio envelhecimento podem contribuir para mudanças tanto na motilidade quanto na constituição do microbioma intestinal. Por isso, pensar em prevenção é sempre o melhor caminho quando falamos de saúde intestinal.

5 hábitos que podem ajudar você e prevenir a disbiose

Algumas atitudes simples no dia a dia podem ajudar a preservar o equilíbrio da microbiota e reduzir o risco de diferentes tipos de disbiose:

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  1. Manter uma alimentação variada e rica em fibras prebióticas, presentes em frutas, verduras, legumes,  e outros alimentos naturais.
  2. Respeitar a rotina do corpo e o funcionamento intestinal, com horários regulares para as refeições e atenção aos sinais do organismo.
  3. Cuidar do estresse e da saúde emocional, reconhecendo que o intestino e o cérebro se comunicam de forma constante.
  4. Manter-se fisicamente ativo, já que a atividade física contribui para uma motilidade intestinal mais eficiente.
  5. Evitar o uso recorrente de antibióticos sem indicação adequada, lembrando que esses medicamentos são essenciais em muitas situações, mas devem sempre ser utilizados com avaliação médica, pois o uso inadequado pode trazer consequências importantes para a microbiota intestinal.

Cuidar da saúde intestinal é um investimento a longo prazo. Pequenas escolhas feitas de forma consistente ajudam a manter o equilíbrio do microbioma e contribuem para o bem-estar geral.

Natália Junkes Milioli – Doctoralia.com.br

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